Quem circula pela região do Kamel Saad talvez ainda enxergue apenas uma área na periferia urbana de Ponta Porã. É ali, porém, que está reservado o terreno para um empreendimento projetado para mudar o caminho de parte dos caminhões, cargas de importação e exportação que passam pela fronteira. O futuro Porto Seco de Ponta Porã será implantado em uma área pública municipal de 235 mil metros quadrados, equivalente a 23,5 hectares, na região do Residencial Kamel Saad. A localização consta em lei municipal e no processo conduzido pela Receita Federal. O terreno aparece oficialmente como "Área D-2" e está registrado sob a matrícula 71.388 no Registro de Imóveis de Ponta Porã. A Lei Municipal nº 4.743, sancionada em 3 de junho de 2026, concedeu o uso da propriedade à Receita Federal para implantação do terminal alfandegado. O perímetro informado é de 2.238,26 metros. A própria Prefeitura, ao anunciar a licitação do Porto Seco em julho, confirmou que o terreno fica na região do Residencial Kamel Saad. Mas onde, exatamente, dentro daquela região?

Documentos antigos ajudam a colocar o Porto Seco no mapa

A resposta começa a aparecer quando se volta à documentação que deu origem ao projeto. Em janeiro de 2022, a Prefeitura declarou de utilidade pública duas áreas para implantação do Porto Seco. Uma delas chama atenção por ter exatamente 235 mil metros quadrados, a mesma dimensão do imóvel atualmente concedido à Receita. Naquele documento, o terreno era denominado Fazenda Rancho Alegre – Parte C e ficava no bairro Kamel Saad, então em zona classificada como suburbana. O decreto traz algo que a legislação mais recente não detalha na publicação: as confrontações do imóvel. Na descrição de 2022, a propriedade tinha como limite o Rio São João a leste e o Córrego Porteira Ortiz ao sul. Ao norte, confrontava com a Chácara Meu Ranchinho e, a oeste, com outra parte da Fazenda Rancho Alegre. Outro lote incluído naquele processo ficava imediatamente na mesma região e tinha como limite, ao sul, a Rua João Paulo VI, além de confrontações com o Córrego Porteira Ortiz e o Rio São João. O conjunto de referências permite situar com muito mais precisão a área histórica destinada ao projeto: na região do Kamel Saad e de Porteira Ortiz, junto ao corredor do Rio São João e próximo do sistema viário que contorna Ponta Porã. Há, porém, um cuidado necessário.

Por que ainda não dá para colocar um pin exato no terreno?

A documentação mudou entre 2022 e 2026. O imóvel de 235 mil metros quadrados descrito em 2022 aparecia sob a matrícula 62.009 e tinha perímetro informado de 2.013,43 metros. Na lei atual, a área destinada à Receita aparece como Área D-2, matrícula 71.388, com perímetro de 2.238,26 metros. Além disso, a Lei nº 4.743 revogou expressamente a autorização municipal anterior. Isso significa que os documentos antigos são uma pista importante para localizar o empreendimento, mas não devem ser usados, sozinhos, para desenhar as divisas atuais da propriedade. A lei de junho informa que há documentos anexos relativos ao imóvel, mas a versão publicada no Diário Oficial consultada pela reportagem não apresenta coordenadas geográficas que permitam reproduzir com segurança o polígono da matrícula 71.388 em um mapa digital. A própria localização já apareceu como dúvida durante a preparação da licitação. Em março, uma entidade que analisava o estudo de viabilidade questionou a Receita Federal porque não havia sido apresentado mapa da área. Na resposta, o órgão confirmou que o terreno disponibilizado pelo município possui 235 mil metros quadrados e informou que os interessados no certame poderiam realizar vistoria para conhecer localização, condições e acessos.

Por que o Kamel Saad foi escolhido?

A posição do terreno ajuda a entender a lógica do projeto. O Porto Seco não funciona como um porto marítimo. Trata-se de um terminal alfandegado terrestre, onde podem ocorrer movimentação, armazenagem e procedimentos aduaneiros de mercadorias destinadas à importação ou exportação. Por isso, acesso para caminhões e conexão com os corredores rodoviários têm peso na escolha da área. Documentos e manifestações anteriores da Prefeitura já destacavam a proximidade da região do Kamel Saad com o sistema viário usado para retirar tráfego pesado da área central. O anel viário foi projetado justamente para redistribuir o fluxo de veículos e caminhões na cidade. Para uma estrutura que terá grandes pátios de manobra e armazenagem, estar fora do miolo urbano reduz a necessidade de direcionar esse movimento para as ruas centrais.

O que cabe nos 23,5 hectares do terreno?

O terreno municipal é bem maior que a área mínima inicialmente dimensionada para a operação. O estudo de viabilidade da Receita calculou 47.904 metros quadrados de área útil mínima para a estrutura do Porto Seco, considerando depósitos, pátio, instalações administrativas, espaços de fiscalização e outros ambientes. O edital lançado em julho detalha exigências como área coberta para armazenagem, espaço de inspeção física, instalações da Receita e mais de 24 mil metros quadrados de área pavimentada para tráfego pesado, pátios, manobras e estacionamento. A diferença entre o terreno total de 235 mil metros quadrados e a estrutura mínima exigida deixa espaço físico para implantação e eventual expansão da operação ao longo dos anos.

Quando o Porto Seco começa a sair do papel?

Ainda não há obras do terminal em andamento. A Receita Federal publicou em 24 de julho a Concorrência Eletrônica nº 43/2026, que vai escolher a empresa responsável pela implantação e operação do Porto Seco. O edital recebeu versão revisada em 12 de agosto. A sessão pública está prevista para 17 de novembro de 2026, às 10h, no horário de Brasília. A permissionária selecionada ficará responsável por construir a estrutura e operar serviços de movimentação e armazenagem das cargas. Portanto, o Porto Seco de Ponta Porã ainda não é um terminal pronto esperando para funcionar. O que já existe é o terreno reservado, o processo de concessão aberto e uma localização que começa a ficar mais clara quando documentos municipais de diferentes anos são cruzados. Para quem quiser procurar a região no mapa, as referências são Residencial Kamel Saad, Porteira Ortiz, Rio São João e Rua João Paulo VI. Para transformar essa localização aproximada em um ponto exato, a próxima peça da apuração é objetiva: obter a planta ou certidão da matrícula 71.388. É ela que pode mostrar, metro a metro, onde começa e termina o futuro Porto Seco de Ponta Porã.

O terreno reservado ao Porto Seco tem 235 mil metros quadrados.

A área fica no Kamel Saad e documentos antigos apontam Rio São João e Porteira Ortiz como referências.

A matrícula atual do imóvel é 71.388; o lote ainda não aparece com pin exato em mapa oficial consultado.

Perguntas frequentes sobre o assunto

Onde será construído o Porto Seco de Ponta Porã? Em uma área pública de 235 mil m² na região do Residencial Kamel Saad. O imóvel é denominado Área D-2 e está registrado sob a matrícula 71.388.

O terreno fica no centro de Ponta Porã? Não. A área reservada ao novo terminal fica na região do Kamel Saad, fora do núcleo central e próxima ao sistema viário utilizado pelo tráfego pesado.

O Porto Seco já está sendo construído? Não. A Receita Federal está na etapa de licitação para selecionar a empresa que deverá implantar e operar o terminal. A sessão está prevista para 17 de novembro de 2026.

A planta atual da matrícula 71.388 é a peça que falta para mostrar com precisão, no mapa, onde ficará o Porto Seco.