Uma imagem incomum registrada no Pantanal de Mato Grosso do Sul chamou a atenção de pesquisadores: um cervo-do-pantanal com a pelagem praticamente preta. O animal apresenta melanismo, condição genética ligada à produção excessiva de melanina, pigmento responsável pela coloração escura.

O registro integra um estudo da ONG Onçafari, em parceria com o pesquisador Walfrido Tomas, da Embrapa Pantanal, que documentou pela primeira vez cientificamente a ocorrência de melanismo em cervos-do-pantanal. Além de Mato Grosso do Sul, animais com a mesma característica foram observados no Cerrado, na região de divisa entre Minas Gerais e Bahia.

Normalmente, o cervo-do-pantanal tem pelagem marrom-avermelhada, partes inferiores das pernas escuras e região do ventre mais clara. Considerado o maior cervídeo da América do Sul, pode chegar a cerca de 130 quilos.

Primeiro registro aconteceu em Miranda

No Pantanal, a primeira fotografia confirmada de um indivíduo melânico foi feita em fevereiro de 2021, na Fazenda Caiman, em Miranda (MS). Tratava-se de uma fêmea adulta acompanhada pela equipe do Onçafari, que não foi vista novamente naquela área depois disso.

O achado chamou atenção porque décadas de pesquisa sobre a espécie no bioma não haviam confirmado cientificamente um animal com essa característica. Quase 9 em cada 10 cervos-do-pantanal do país, de uma população que gira em torno de 40 mil animais, vivem justamente no Pantanal, e em 40 anos de pesquisa nenhum caso de melanismo tinha sido documentado ali.

Relatos de moradores, porém, indicam que cervos de pelagem muito escura já teriam sido vistos antes em outras partes do Pantanal. Uma das referências é a região conhecida como Baía do Cervo Preto, próxima à Estação Ecológica de Taiamã, em Mato Grosso.

Outras alterações de pigmentação, como albinismo e leucismo, já haviam sido observadas na espécie.

Por que alguns cervos ficam pretos?

O melanismo acontece quando há produção elevada de melanina, uma alteração que ocorre em cerca de 13% das espécies de mamíferos. No caso dos cervos-do-pantanal, os pesquisadores contaram, ao todo, 12 indivíduos melânicos documentados: 1 na Fazenda Caiman e 11 no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, no Cerrado.

A situação encontrada no Cerrado chamou ainda mais atenção. Entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026, a maior parte dos avistamentos diretos feitos pelos pesquisadores naquela região envolveu animais melânicos: dos 12 avistamentos diretos no período, 8 eram de cervos escuros.

"Essa mutação pode indicar que a saúde genética da população está em risco."

Quem assina essa hipótese é Edu Fragoso, um dos autores do estudo, que responde pela equipe do Onçafari dentro do parque, no Cerrado da divisa entre Minas Gerais e Bahia. A ideia é que habitat fragmentado, menos área úmida disponível e mais pressão humana empurrem populações pequenas e isoladas para deriva genética e endogamia, e isso ajudaria a explicar por que o melanismo apareceu justamente ali. Falta, porém, o exame genético que confirme a hipótese.

Os animais de pelagem preta foram observados se alimentando e convivendo normalmente com cervos de coloração tradicional. Também houve registro de possível aproximação reprodutiva entre um macho melânico e uma fêmea de pelagem comum.

Pelagem escura pode representar desvantagem

Embora o melanismo seja um fenômeno natural, os pesquisadores avaliam se a coloração diferente pode interferir na sobrevivência dos animais.

Uma pelagem mais escura, por exemplo, pode alterar a capacidade de camuflagem e tornar o cervo mais perceptível a predadores, entre eles a onça-pintada. Também existem hipóteses relacionadas à regulação da temperatura corporal e a outros efeitos fisiológicos associados à pigmentação. Essas consequências, porém, ainda precisam ser investigadas especificamente nos cervos-do-pantanal.

Espécie enfrenta ameaças no Brasil

O cervo-do-pantanal é classificado como vulnerável no Brasil e depende de áreas úmidas para sobreviver. Perda e fragmentação de habitat, incêndios, caça ilegal, mudanças climáticas, barragens e doenças transmitidas por animais domésticos estão entre as ameaças enfrentadas pela espécie.

No Cerrado, onde algumas populações estão em situação ainda mais delicada, a transformação de áreas naturais e a redução de ambientes úmidos aumentam a pressão sobre os animais.

O registro do chamado "veado preto", além da curiosidade provocada pela aparência, pode ajudar pesquisadores a entender melhor a genética, o isolamento e a conservação das populações de cervo-do-pantanal no país.