No dia 15 de agosto de 1537, o capitão espanhol Juan de Salazar de Espinosa ergueu um forte de madeira na margem leste do rio Paraguai. Batizou o lugar de Nuestra Señora Santa María de la Asunción, nome do dia no calendário católico. Salazar não ficou por muito tempo: seguiu viagem rumo a Buenos Aires e deixou o comando com outro capitão da mesma expedição, Gonzalo de Mendoza. Neste sábado, esse forte completa 489 anos, hoje com outro nome: Assunción, capital do Paraguai.
A cidade que virou fábrica de cidades
A fundação de 1537 foi só o primeiro capítulo. Assunción funcionava como base de abastecimento da 'Provincia Gigante de Indias', o território espanhol que ia do Amazonas à Patagônia. Dali partiam expedições inteiras, com soldado, mantimento e gente disposta a fundar povoado novo rio abaixo ou serra adentro.
- Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia: fundada em 26 de fevereiro de 1561 por Ñuflo de Chávez, à frente de 158 espanhóis saídos de Assunción.
- Corrientes, na Argentina: fundada em 3 de abril de 1588, por expedição comandada por Hernando Arias de Saavedra (Hernandarias).
- Santa Fe, na Argentina: fundada em 1573.
- Buenos Aires: refundada em 1580, depois de a primeira tentativa espanhola ter sido destruída.
Segundo o jornal paraguaio La Nación, foram cerca de 70 povoações fundadas a partir de Assunción em menos de um século, entre a Argentina, a Bolívia, o Brasil e o próprio Paraguai. É esse histórico que rendeu à cidade o apelido de 'Madre de Ciudades'. O detalhe que os folhetos turísticos costumam pular: nenhuma dessas expedições andava sozinha. O historiador francês Guillaume Candela, que estuda a conquista da América, aponta na ABC Color que todas elas dependiam de aliança com guias guarani, os chamados 'indios amigos'.
Um nome que veio de um quartel em Assunção
A onda colonizadora que saiu de Assunção nos séculos 16 e 17 chegou perto: a província jesuítica do Itatín, administrada a partir da capital, teve povoados nessa faixa de território, como Santiago de Jerez, fundada em 1593 perto do atual Naviraí (MS) e depois transferida pra perto de Aquidauana. A ligação entre Assunção e a fronteira PP-PJC chegaria por outro caminho, bem mais pessoal, quase três séculos depois.
Em 1º de dezembro de 1899, um decreto presidencial criou um posto policial perto da Laguna Punta Porã e ali hasteou pela primeira vez a bandeira paraguaia. O lugar recebeu o nome do próprio acidente geográfico: Punta Porã. Menos de dois anos depois, em 30 de agosto de 1901, outro decreto trocou esse nome. A partir dali, o povoado passou a se chamar Pedro Juan Caballero.
Setenta cidades nasceram de expedições saídas de Assunción entre os séculos 16 e 17. A que fica na porta de Ponta Porã é mais recente: nasceu em 1899, batizada em 1901 com o nome de um capitão.
O nome homenageia um capitão paraguaio que, 90 anos antes, comandou o quartel central de Assunción na noite de 14 para 15 de maio de 1811, quando o Paraguai se tornou independente da Espanha. Essa história já foi contada aqui. É esse o fio real que liga Assunción à fronteira: um homem que decidiu abrir um quartel numa noite específica, e cujo nome viajou até uma cidade que ainda nem existia.
A cidade que começou como posto policial de fronteira virou sede de governo regional em menos de meio século: em 10 de julho de 1945, um decreto tornou Pedro Juan Caballero capital do recém-criado departamento de Amambay.
Um feriado que não muda de data
No Paraguai, o 15 de agosto é feriado nacional fixo. A Lei 7544/2025, que reorganizou o calendário de feriados do país, manteve o Día de la Fundación de Asunción fora da lista de datas móveis. É um feriado só de um lado da Avenida Internacional: vale conferir o horário de comércio antes de atravessar, se a ida for por causa de compra.
Assunción chega aos 489 anos como capital de um país inteiro e mãe de outras dezenas de cidades espalhadas por quatro países. A fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero é bem mais nova: 127 anos, contados a partir do posto policial de 1899. O parentesco entre as duas cidades tem uma origem específica: um nome escolhido a dedo em 1901, noventa anos depois daquela noite de quartel em Assunção, pra lembrar um capitão que hoje quase ninguém para pra contar. Da próxima vez que alguém atravessar a Avenida Internacional em direção a Pedro Juan Caballero, aquele nome na placa da cidade carrega 215 anos de história paraguaia.
De onde vêm os nomes da fronteira
Esta ficha faz par com a história do capitão Pedro Juan Caballero e com a da própria linha PP-PJC. Conhece outro fio histórico que ligue Assunción à fronteira? Fale com a gente. Falar com a redação
Linha do tempo
- 1537Juan de Salazar de Espinosa funda o forte Nuestra Señora Santa María de la Asunción, em 15 de agosto.
- 1561Ñuflo de Chávez funda Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), à frente de expedição saída de Assunción.
- 1573Fundação de Santa Fe (Argentina).
- 1580Refundação de Buenos Aires.
- 1588Fundação de Corrientes (Argentina), por expedição de Hernandarias.
- 1593Ruy Díaz de Guzmán funda Santiago de Jerez, no atual município de Naviraí (MS).
- 1596Santiago de Jerez é transferida pra perto de Aquidauana (MS).
- 1632Bandeirantes paulistas destroem Santiago de Jerez, Ciudad Real del Guairá e Villa Rica del Espíritu Santo.
- 1811 (14-15 mai)O capitão Pedro Juan Caballero comanda o quartel de Assunção na noite da independência paraguaia.
- 1899 (1 dez)Decreto cria posto policial na Laguna Punta Porã: nasce o povoado de Punta Porã.
- 1901 (30 ago)Decreto renomeia o povoado para Pedro Juan Caballero, em homenagem ao capitão.
- 1945 (10 jul)Pedro Juan Caballero vira capital do novo departamento de Amambay.