Todo 1º de agosto o vizinho paraguaio toma carrulim, a mistura de caña, arruda e limão que se bebe para espantar o azar do mês. Quem mora na fronteira conhece o gole. O que o Paraguai fez agora foi proteger não a bebida, e sim o mundo que produz a bebida.
A Secretaría Nacional de Cultura declarou Patrimônio Cultural Imaterial Nacional, nos termos da resolução, "los saberes, prácticas y expresiones culturales desarrollados en torno a la caña paraguaya". O ato saiu pela Resolução SNC nº 450/2026, no dia 1º de agosto, no Centro Cultural del Puerto de Asunción, durante a jornada do Día Nacional del Carrulim.
O que exatamente entrou na lista
A resolução não reconhece só o produto. Ela começa no canavial e vai até o copo: cultivo, moagem, fermentação, destilação e os ofícios de quem faz cada etapa. Entram junto a receita de casa, o uso na cozinha e o uso como remédio, a festa popular, o jeito de receber visita e as histórias e crenças que agricultores, trabalhadores, produtores e famílias inteiras foram passando adiante.
A entrega da resolução foi feita por Natalia Ántola, que dirige a área de Patrimônio Cultural na Secretaría Nacional de Cultura, a representantes da cadeia produtiva da caña: a câmara industrial do setor, a estatal CAPASA e produtores de cana.
Uma bebida que já era patrimônio, dentro de uma cadeia que agora também é
O carrulim não estava desprotegido: ele já tinha declaração de patrimônio desde 2019. O que mudou é a moldura. Antes, o reconhecimento parava na bebida do dia 1º; agora alcança quem planta, quem mói e quem destila o ano inteiro.
No mesmo dia houve o conversatório "Orígenes, historia y patrimonio de la caña paraguaya", com a chef Arami O'Hara na mediação, e a jornada teve feiras, espaços de degustação e preparo do carrulim. A elaboração e a venda de bebidas derivadas da cana estão documentadas no país desde fins do século XVI.
O que a declaração muda na prática para quem produz (se abre linha de crédito, selo de origem ou proteção de nome) não está dito nos dois documentos oficiais. Também não há menção a ações previstas em Amambay ou em outro departamento de fronteira.