Quem passou pelo centro de Ponta Porã neste mês encontrou uma cena que, por muitos anos, seria difícil imaginar: a Casas Bahia de portas fechadas. A unidade encerrou as atividades em 14 de agosto, depois de mais de 15 anos na cidade, em meio a uma ampla reestruturação da rede no Brasil.

Na fronteira, o fechamento ganhou peso ainda maior por mexer com uma referência conhecida do comércio local. Mas Ponta Porã não foi exceção. Outras lojas da rede também fecharam em Mato Grosso do Sul e em diferentes regiões do país. O Grupo Casas Bahia entrou em recuperação judicial e anunciou um processo de reorganização que inclui redução da estrutura física.

E a Casas Bahia está longe de ser o único nome conhecido a rever sua presença no mercado brasileiro. Neste mês, a General Mills também anunciou o fim da distribuição dos sorvetes Häagen-Dazs no Brasil. Nos últimos anos, Ford, Sony, Forever 21, Fnac, Nikon e outras marcas reduziram, encerraram ou transformaram suas operações no país.

Mas há uma diferença importante: não existe uma única razão para essas decisões, e nem todos esses casos significam que uma empresa simplesmente "abandonou o Brasil". Em alguns casos, pesam dívidas e necessidade de cortar custos. Em outros, a decisão vem de uma estratégia global, da baixa escala da operação brasileira, da concorrência, da mudança nos hábitos de consumo ou da opção de substituir fábricas e lojas próprias por importação e comércio digital.

O fechamento da Casas Bahia diz algo sobre o novo varejo?

Em parte, sim. A crise da companhia tem características próprias, principalmente financeiras, mas ocorre num momento em que grandes redes precisam justificar cada vez mais o custo de manter extensas estruturas físicas.

A loja deixou de competir apenas com a loja da esquina. Hoje, disputa o consumidor com marketplaces, aplicativos, redes sociais, grandes plataformas de comércio eletrônico e operações capazes de entregar produtos sem manter uma unidade física em cada cidade.

Na fronteira de Ponta Porã com Pedro Juan Caballero há ainda uma particularidade: o consumidor está acostumado a pesquisar preços e circular entre diferentes mercados. Loja física brasileira, internet e comércio do lado paraguaio convivem na mesma decisão de compra.

Isso não significa que essa dinâmica tenha provocado o fechamento da Casas Bahia em Ponta Porã. A empresa trata os cortes dentro de uma reestruturação nacional. Mas mostra como manter uma grande operação física numa cidade de fronteira também exige adaptação a um consumidor que dispõe de muitos canais para comparar e comprar.

Häagen-Dazs: quase três décadas e fim da distribuição

A Häagen-Dazs chegou oficialmente ao Brasil em 1997 e chegou a manter lojas próprias no país. Em 2018, a General Mills fechou as unidades próprias que ainda funcionavam, mas os sorvetes continuaram chegando aos consumidores por outros pontos de venda.

Agora, a companhia decidiu encerrar a distribuição da marca no mercado brasileiro. Segundo a General Mills, a mudança faz parte de uma reformulação de portfólio anunciada pela empresa. É um exemplo de marca que sai de um mercado por decisão da controladora, que escolheu concentrar investimentos em outros produtos, países ou modelos de negócio.

Na fronteira, há outra diferença relevante: deixar de ter distribuição oficial no Brasil não significa que o produto vai desaparecer da região inteira. Mercadorias importadas e comercializadas legalmente no Paraguai seguem cadeias próprias de abastecimento, que dependem de seus próprios distribuidores e importadores.

Haribo fechou sua fábrica brasileira

Conhecida principalmente pelas balas de gelatina em formato de ursinho, a alemã Haribo já vendia produtos importados no Brasil antes de decidir produzir por aqui. Em 2016, inaugurou em Bauru, no interior paulista, sua primeira fábrica fora da Europa.

Dez anos depois, em abril de 2026, anunciou o encerramento da produção brasileira. A unidade continuou funcionando até julho para concluir o processo de fechamento. A empresa citou fatores relacionados à competitividade, ao ambiente de negócios e à sustentabilidade da operação no longo prazo.

Ford deixou de fabricar, mas não deixou de vender

O caso da Ford ajuda a entender por que "sair do Brasil" nem sempre é a expressão mais precisa. A montadora começou a operar no país em 1919 e construiu uma longa história industrial por aqui. Em janeiro de 2021, anunciou o fim da fabricação de veículos no Brasil e encerrou unidades como Camaçari, na Bahia, e Taubaté, em São Paulo.

Entre as razões apresentadas estavam capacidade ociosa, queda nas vendas, perdas acumuladas e um ambiente econômico desfavorável, agravado naquele período pela pandemia. A Ford, porém, continuou no mercado brasileiro. A diferença é que os veículos vendidos no país passaram a ser importados.

Mercedes-Benz também reviu a produção de automóveis

A Mercedes-Benz tem história industrial no Brasil desde a década de 1950. Em 2020, decidiu encerrar a fabricação de automóveis na unidade de Iracemápolis, em São Paulo, onde eram produzidos os modelos Classe C e GLA. A empresa relacionou a decisão à queda do mercado de veículos premium e a uma reorganização de sua estrutura global de produção.

Assim como a Ford, a Mercedes-Benz não desapareceu do país. Continuou com outras atividades, incluindo caminhões e chassis de ônibus, além da comercialização de automóveis importados.

Forever 21 sentiu custos, escala e concorrência

A americana Forever 21 chegou ao Brasil em 2014 com forte atenção do público jovem e chegou a operar 15 lojas. A experiência durou menos de uma década: em 2022, a rede encerrou suas lojas brasileiras após liquidações de estoque. Entre os problemas enfrentados estavam dificuldades financeiras, custos elevados, baixa escala e concorrência crescente no segmento de moda, sobretudo com varejistas asiáticas.

É justamente nesse setor que a transformação digital ficou mais visível. Marcas que dependiam de grandes lojas em shoppings passaram a enfrentar concorrentes capazes de vender direto pelo celular, com uma estrutura física muito menor.

Fnac não conseguiu ganhar escala

A francesa Fnac desembarcou no Brasil em 2000 apostando numa combinação de livros, música, filmes, eletrônicos e produtos culturais. Chegou a manter 12 lojas. Em 2017, sua operação brasileira foi comprada pela Livraria Cultura, e no ano seguinte a última loja com a bandeira Fnac fechou. Entre os pontos mencionados pela companhia estavam a necessidade de ganhar escala, queda das vendas e aumento da competitividade.

O Walmart trocou de estratégia, não de país

A rede americana desembarcou por aqui em 1995 e chegou a espalhar lojas pelo país. Em 2018, vendeu 80% da operação brasileira ao fundo Advent International, dentro de uma revisão do portfólio internacional da companhia.

A partir daí, a marca Walmart começou a desaparecer das fachadas. O negócio passou a operar como Grupo BIG e, depois, seus ativos foram incorporados pelo Carrefour. Não houve simplesmente um fechamento de todas as atividades ao mesmo tempo: houve venda, mudança de controle e substituição da bandeira.

Sony reduziu a presença, mas continua no Brasil

Outro exemplo de saída parcial é o da Sony. A companhia japonesa anunciou em 2020 o fechamento de sua fábrica em Manaus e, em 2021, deixou de vender diretamente no Brasil algumas linhas de televisores, câmeras e equipamentos de áudio, citando mudanças no ambiente de mercado e uma revisão da sustentabilidade de suas operações.

Isso não representou o fim completo da presença da empresa no país. Áreas como PlayStation, música, entretenimento e soluções profissionais continuaram operando.

Nikon encerrou a operação direta

A Nikon anunciou em 2017 que deixaria de vender diretamente no Brasil câmeras, lentes e acessórios. No ano seguinte, informou o encerramento de suas atividades no país dentro de uma reestruturação global que envolvia pesquisa, fabricação e vendas. Produtos da marca continuam podendo chegar ao consumidor por importação e outros canais, o que mostra a diferença entre uma empresa manter operação própria e seus produtos continuarem disponíveis.

Roche fechou fábrica, mas permaneceu no mercado

A farmacêutica Roche está no Brasil desde 1931 e durante décadas produziu medicamentos em sua fábrica de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Em 2019, a empresa anunciou que encerraria a produção naquela unidade, processo concluído em 2024, relacionado à estratégia global da empresa e a mudanças em seu portfólio. A Roche, entretanto, segue atuando comercialmente no Brasil e disponibilizando medicamentos no mercado nacional.

Topshop teve passagem curta pelo país

A britânica Topshop chegou ao Brasil em 2012 e chegou a quatro endereços em São Paulo. Quatro anos depois, fechou sua última unidade brasileira. A empresa não apresentou uma justificativa oficial detalhada para a decisão, embora sua operação já enfrentasse dificuldades no período.

Afinal, por que tantas marcas fecham ou reduzem operações?

Olhar só para as fachadas fechadas pode passar a impressão de que todas essas empresas enfrentaram o mesmo problema. Não enfrentaram. Há companhias que deixaram o país por decisões globais. Outras não conseguiram alcançar escala suficiente. Algumas reduziram fábricas e passaram a importar. Há redes que perderam espaço para novos concorrentes, e empresas pressionadas por endividamento, juros, custos ou mudanças rápidas no comportamento do consumidor.

Fechar uma fábrica ou uma loja não significa, necessariamente, abandonar o Brasil.

Também existem grandes grupos internacionais que continuam investindo e ampliando negócios no Brasil. Por isso, a sequência de marcas conhecidas encerrando determinadas atividades não deve ser interpretada automaticamente como uma retirada generalizada das empresas do país.

O que os casos revelam é uma transformação mais ampla: ter uma marca conhecida já não garante que o mesmo modelo de loja, fábrica ou distribuição vai continuar funcionando para sempre. E Ponta Porã acaba de ver essa transformação de perto.

A porta fechada da Casas Bahia no centro da cidade é um fato local, com impacto sobre trabalhadores e consumidores. Ao mesmo tempo, faz parte de uma mudança nacional na maneira como grandes empresas escolhem onde manter lojas, como vender, quanto custa operar e quais mercados ainda fazem sentido dentro de suas estratégias.

Na fronteira, onde o consumidor atravessa uma avenida e encontra outro país, compara preços em moedas diferentes e ainda carrega no bolso dezenas de lojas virtuais, essas mudanças talvez fiquem ainda mais evidentes.

Afinal, a Casas Bahia saiu do Brasil?

Não. A rede fechou centenas de unidades dentro de uma reestruturação e entrou em recuperação judicial, mas continua operando no país, inclusive por canais digitais.

Por que a Häagen-Dazs deixou o mercado brasileiro?

A General Mills informou que encerrou a distribuição da marca no Brasil dentro de um plano de reformulação de seu portfólio.

Toda marca que fecha fábrica ou loja deixou o Brasil?

Não. Ford, Mercedes-Benz, Sony e Roche são exemplos de empresas que encerraram determinadas operações, mas mantiveram outras atividades ou vendas no mercado brasileiro.