Quem estuda Medicina em Pedro Juan Caballero de olho em trabalhar no Brasil depois vai esbarrar, cedo ou tarde, no Revalida. É o exame do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) que revalida diploma de Medicina expedido fora do país, criado pela Lei nº 13.959/2019. Ele não é concurso público, não seleciona os melhores e não substitui o registro no Conselho Regional de Medicina depois de aprovado. É, nas palavras do próprio INEP, um jeito de checar se quem se formou fora tem a competência que o diploma diz que tem.
O calendário do Revalida 2026.2, edição em curso agora
A prova teórica, primeira etapa, está marcada pra domingo, 13 de setembro, com portões abertos ao meio-dia e prova das 13h30 às 18h30 (horário de Brasília), em todos os estados do país. São cem questões de múltipla escolha. O cartão de confirmação, com o local exato de cada participante, sai dia 4 de setembro.
- 13 de setembro: prova teórica (1ª etapa), 100 questões
- 14 a 19 de setembro: envio da documentação que comprova a conclusão do curso
- 9 de outubro: resultado da análise dessa documentação
- 14 a 16 de outubro: prazo pra recurso contra esse resultado
- 4 de dezembro: resultado definitivo
A segunda etapa, de habilidades clínicas, ainda não teve edital publicado no momento desta matéria. Ela costuma ter dez estações, divididas pelas cinco grandes áreas da Medicina (clínica médica, cirurgia, ginecologia e obstetrícia, pediatria e medicina de família), com até dez pontos por estação.
O documento que o próprio INEP já usa o Paraguai pra explicar
Existe um erro de inscrição comum o bastante pra o INEP ter dedicado um manual inteiro a ele, e o exemplo que a instituição escolheu pra ilustrar o problema foi justamente o curso paraguaio. O curso de Medicina no Paraguai é dividido em ciclo básico, ciclo pré-clínico, ciclo clínico, internato e atividades complementares, cada um com certificado próprio de conclusão. Segundo o INEP, apresentar esses certificados de etapa não vale como prova de que o curso terminou. Só o diploma final conta.
O diploma precisa ter sido emitido por instituição reconhecida no país de origem pelo Ministério da Educação ou órgão equivalente, e precisa chegar autenticado pelo consulado brasileiro ou com o Apostilamento de Haia. No Paraguai, quem cuida desse reconhecimento institucional é o Consejo Nacional de Educación Superior e a ANEAES, tema da primeira matéria desta série: uma faculdade sem esse reconhecimento em dia complica esse passo antes mesmo de chegar na inscrição do Revalida.
A taxa de aprovação que nunca se repete de uma edição pra outra
Não existe um número fixo de aprovação no Revalida, porque essa taxa varia muito de semestre para semestre. Olhando as edições que o INEP já fechou, a aprovação na primeira etapa foi de 1,81% em 2023/2, de 6,81% em 2024/2 e de 25,49% em 2025/1, depois de já ter passado de 37% em 2015 e de quase 29% em 2021 e 2022/1. Quem promete um número fixo de aprovação pra quem ainda vai prestar o exame está inventando.
Sobre o Paraguai especificamente, dois números diferentes circulam e não podem ser confundidos. O primeiro é volume: na edição 2024/1, 921 das 1.946 aprovações totais da segunda etapa vieram de diploma paraguaio, a maior fatia de qualquer país; na edição 2025/1, foram 2.336 aprovados de origem paraguaia, de novo a maior contagem de qualquer país isolado, com a Universidad Internacional Tres Fronteras sozinha respondendo por 457 delas. Isso mede quantidade de gente aprovada. A chance individual de passar é outra conta: o Paraguai forma o maior contingente de brasileiros que estudam Medicina fora, então lidera em número absoluto mesmo com taxa individual baixa.
O segundo número é taxa de fato, por instituição. Um levantamento do pesquisador Mario Scheffer, da Faculdade de Medicina da USP, com dados do próprio INEP obtidos pela Lei de Acesso à Informação, calculou a taxa de aprovação da edição de 2023 por faculdade de origem, considerando só instituições com pelo menos 40 formados examinados naquele ano. Entre as paraguaias avaliadas, a taxa foi de 1,5% na ponta mais baixa e de 25,9% na mais alta, com a maioria das outras entre 3,3% e 21,1%. Vale para aquela edição, e só. Serve para mostrar o tamanho da distância entre concluir Medicina no Paraguai e ter garantia de passar no Revalida depois.
O que isso muda pra quem está na fronteira
Quem vai prestar o Revalida 2026.2 precisa ter em mãos o diploma completo, não certificado de ciclo, com a autenticação ou apostilamento em dia, e checar se a instituição de origem segue reconhecida no Paraguai (o panorama das faculdades que atendem Pedro Juan Caballero e Amambay está na terceira matéria desta série). Quem ainda vai se formar tem tempo de resolver essa documentação com calma. Quem já formou e nunca prestou o exame encontra o próximo edital, sempre semestral por lei, no Sistema Revalida e no Painel Revalida, onde o INEP publica os resultados por edição.