Quem atravessa a linha internacional pra estudar Medicina em Pedro Juan Caballero passou 2026 recebendo notícia atrás de notícia sobre a própria faculdade, e não sobre a grade curricular. O Conselho Nacional de Educação Superior (CONES) mudou a regra de habilitação de curso novo em março, uma faculdade inteira da cidade anunciou mudança pra Assunção em junho, e o Ministério da Educação paraguaio confirmou em agosto um prazo pra 2028 que pesa sobre quem ainda não tem curso acreditado. Quem já formou não sente nada disso no diploma que já tem em mãos, mas quem está cursando agora, ou decidindo onde se matricular, sente cada uma dessas três mudanças de um jeito diferente.
A diferença entre ter aula liberada e ter selo de qualidade
No Paraguai, duas siglas cuidam de coisas diferentes. O CONES habilita: decide se uma faculdade pode abrir e funcionar. A ANEAES acredita: avalia, depois que a faculdade já está de pé, se o curso cumpre um padrão nacional de qualidade. Pela Lei nº 2072/2003, Medicina é uma das seis carreiras do país (ao lado de Direito, Odontologia, Engenharia, Arquitetura e Engenharia Agronômica) em que passar por essa avaliação não é opcional.
O informe mais recente da própria ANEAES contabilizou 43 carreiras de Medicina habilitadas pelo CONES em todo o país, oferecidas por 25 universidades. Dessas 43, só 22 tinham a acreditação nacional da ANEAES. Treze estavam em fila de espera pra visita de avaliação. Uma tinha sido postergada.
O retrato de Amambay: seis credenciadas, quatro na fila
Segundo esse mesmo levantamento, Amambay soma seis carreiras de Medicina acreditadas, atrás só de Assunção (sete) e à frente de qualquer outro departamento do país. Concentram esse selo, hoje, a Universidad Central del Paraguay (UCP), a Universidad del Norte, a Universidad del Pacífico, a Universidad Sudamericana (que além do selo nacional tem também a acreditação regional do Sistema ARCU-SUR), a Universidad Politécnica y Artística del Paraguay (UPAP) e a Universidad Internacional Tres Fronteras.
Na fila, sem acreditação confirmada até a data desse levantamento, estavam a Universidad Autónoma San Sebastián (UASS), a Universidad Columbia del Paraguay e a Universidad Hernando Arias de Saavedra, essa última habilitada só em 2024. Ao todo, contando a Medicina que nasceu em março deste ano, Pedro Juan Caballero chegou a dez ofertas de Medicina, todas de faculdades privadas.
A resolução que a própria ANEAES chamou de invasão de função
O fato novo de 2026 tem nome e número: Resolução nº 2/2026, aprovada pelo CONES em 17 de março. Ela criou um regime de habilitação provisória pra Medicina que dispensa a faculdade nova de comprovar campo de prática clínica logo de saída, dando dois anos pra isso ser resolvido depois. É o oposto do que valia desde 2020, quando uma resolução anterior proibia justamente esse tipo de habilitação provisória na área da saúde.
A ANEAES reagiu com um comunicado institucional três dias depois. A agência afirma que a resolução usa conceitos de "controle de qualidade" e "acompanhamento técnico" que a Lei nº 2072/2003 reserva a ela, não ao CONES, e que vai defender essa autonomia pelos mecanismos legais disponíveis. O Círculo Paraguayo de Médicos também se posicionou contra, alertando pra risco de saturação dos campos de prática clínica na fronteira e de estágio "meramente simulado".
Foi essa resolução que abriu caminho pra Universidad Interamericana entrar em Pedro Juan Caballero. Em maio, uma publicação de uma entidade do setor chegou a afirmar que a faculdade, habilitada havia só dois meses, já tinha alunos no oitavo semestre. O reitor da instituição chamou isso de erro de publicação e disse que a Interamericana só tinha turma de primeiro semestre desde março; a nota original foi corrigida.
A faculdade que está de mudança pra Assunção
Em 23 de junho, o CONES aprovou o pedido da UCP de transferir toda a sua sede de Pedro Juan Caballero, Medicina incluída, pra Assunção. A justificativa apresentada foi a mesma da preocupação médica: excesso de oferta de Ciências da Saúde concentrado na fronteira. O prédio onde funcionava a UCP em Pedro Juan Caballero já opera neste ano sob a marca Universidad Interamericana.
Em julho, mais de 200 alunos de Medicina da UCP se manifestaram publicamente, pedindo transparência sobre a mudança e garantia de que os diplomas seriam emitidos com validade. A universidade respondeu que quem já está do sétimo semestre em diante conclui o curso sem mudança, e que quem está em semestres anteriores precisa se transferir, num processo que a instituição descreve como gratuito.
A partir de 2028, diploma sem selo não registra mais no MEC
Esse é o prazo que atravessa todo o sistema, não só a Medicina. Em setembro de 2025, o Ministerio de Educación y Ciencias paraguaio, o MEC, anunciou que, a partir de 2026, toda carreira sujeita à Lei nº 2072/2003 precisa estar em processo de acreditação junto à ANEAES. A partir de 2028, o MEC só registra diploma de quem se formou numa carreira já acreditada.
Um grupo de reitores pediu, em agosto deste ano, prorrogação até 2030. O ministro da Educação confirmou que não vai conceder mais prazo. Pra quem se forma numa das quatro faculdades de Medicina de Pedro Juan Caballero ainda sem selo, isso quer dizer que o relógio corre junto com o curso: se a acreditação não sair até lá, o diploma não entra no registro oficial paraguaio.
Isso interessa direto a quem pensa em revalidar o diploma no Brasil depois de formado: o próprio edital do Revalida exige diploma reconhecido pelo ministério da educação do país onde o curso foi feito. Um diploma que nunca chegou a ser registrado no Paraguai começa a discussão em desvantagem.
Serviço: o que muda pra quem já estuda ou pensa em se matricular
Quem já está numa das seis faculdades acreditadas de Amambay (UCP, Universidad del Norte, Universidad del Pacífico, Universidad Sudamericana, UPAP ou Universidad Internacional Tres Fronteras) não tem mudança imediata de situação por causa do prazo de 2028, mas quem está na UCP de Pedro Juan Caballero precisa acompanhar de perto o processo de transferência pra Assunção.
Quem está na UASS, na Universidad Columbia, na Universidad Hernando Arias de Saavedra ou na recém-chegada Universidad Interamericana vale acompanhar publicações da própria ANEAES sobre visita de avaliação marcada pra essas instituições. Quem ainda está escolhendo onde se matricular encontra o panorama completo das faculdades que atendem a fronteira na terceira matéria desta série.