O tereré é erva-mate servida com água gelada numa guampa, o copo que por tradição é feito de chifre de boi, e tomada por um canudo de metal ou de cana, a bomba. Na fronteira de Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, o jeito tradicional de tomar é em roda, com uma pessoa despejando a água na guampa e entregando a cada um na sua vez. A bebida é de origem guarani, e em dezembro de 2020 a UNESCO inscreveu as práticas do tereré na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, em nome do Paraguai.
De onde vem o tereré e como ele virou patrimônio
O dossiê que o Paraguai entregou à UNESCO registra a prática nas famílias paraguaias desde o século XVI, aproximadamente, passada de pais para filhos pela tradição oral. O mesmo documento descreve o preparo: numa jarra ou numa garrafa térmica, a água fria se mistura ao pohã ñana, as ervas medicinais socadas no pilão, que em guarani se chama angu'a. Essa água vai para a guampa, que já está cheia de erva-mate.
No Paraguai, a Lei 4.261, promulgada em 7 de janeiro de 2011, declarou o tereré patrimônio cultural e bebida nacional e fixou o último sábado de fevereiro como Día Nacional del Tereré. Quatro anos depois, a Lei 5.406 criou o Día Nacional del Pohã Ñana, em 1º de agosto, e declarou sítio turístico o Paseo de los Yuyos do Mercado Municipal nº 4. A inscrição na UNESCO veio em dezembro de 2020, na 15ª sessão do Comitê Intergovernamental, e foi a primeira do país nessa lista.
Do lado brasileiro, o reconhecimento começou em Ponta Porã. O Decreto estadual nº 13.140, de 31 de março de 2011, registrou o Tereré de Ponta Porã no Livro de Registro dos Saberes de Mato Grosso do Sul, segundo a lista de bens imateriais da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul. O texto do registro cita, entre os motivos, a importância do ciclo da erva-mate no desenvolvimento da região, história contada na ficha da Princesinha dos Ervais. O pedido partiu da própria cidade, de acordo com um estudo da UEMS sobre o tereré na fronteira. Em 29 de junho de 2023, a Assembleia Legislativa aprovou o Decreto Legislativo nº 769, que declara o tereré patrimônio imaterial e cultural de todo o estado.
Como funciona a roda de tereré, do cebador à guampa
A roda tem nome em guarani, tereré jere. Quem serve é o cebador, que o dossiê da UNESCO descreve como a única pessoa da roda com nome e tarefa próprios. Costuma ser o mais novo da família ou do grupo, o que o documento atribui ao respeito guarani pelos mais velhos. Em casa, o pai quase nunca prepara o tereré e pede ao filho caçula, o pahague, ou à mãe, e é assim que a criança aprende.
O mesmo estudo da UEMS encontrou essa regra em Ponta Porã e Pedro Juan, com a bebida passando aos outros da roda um por vez, sem repetição.
A guampa de chifre de boi leva no fundo um toco de madeira de cedro. Antes do primeiro uso ela é fervida, para a madeira inchar e vedar, e pode ser polida com folha de lixeira ou de embaúba, árvores comuns na região. A bomba costuma ser de alumínio, e a de ferro fica de fora porque oxida e muda o gosto. Os artesãos que fazem guampa e bomba no Paraguai trabalham com chifre, palo santo, bambu, alpaca e prata, e no dia a dia a guampa divide espaço com o copo de plástico e a caneca.
Os yuyos: as ervas que vão socadas na água do tereré
Pohã ñana, em guarani, são as ervas medicinais que entram na água, e o nome popular delas é yuyo. Quem vende as ervas e ensina o uso são os yuyeros e os médicos ñana, que o dossiê paraguaio põe entre os portadores dessa tradição. O mesmo documento separa as ervas em dois grupos: os pohã ro'ysã, remédios refrescantes que ajudam na digestão, e os pohã raku, remédios quentes usados no resfriado e na bronquite.
O Ministério da Saúde Pública do Paraguai cita entre as mais usadas no tereré o cedrón, a menta, a hierbabuena, o tarope, o kapi'i katî, a perdudilla, o ajenjo, o jaguarete ka'a, o para para'i e o agrial. A recomendação do ministério é lavar bem as folhas antes de socar e não misturar mais de dois tipos de remédio refrescante.
Quando e onde se toma tereré em Ponta Porã e Pedro Juan
O Ministério da Saúde paraguaio descreve o tereré como bebida de consumo diário em todo o país, a qualquer hora e em qualquer lugar, e o trata como a opção refrescante do calor forte. Na fronteira, o estudo da UEMS encontrou o tereré tanto dentro de casa quanto nas rodas de amigos e de colegas de trabalho, dos dois lados da Avenida Internacional.
O dossiê da UNESCO registra os nomes que o tereré ganha conforme a ocasião:
- Tereré rupa: o salgado que se come antes de tomar.
- Tereré caballería: a guampa enchida até a boca para tomar rápido antes de voltar ao trabalho.
- Tereré albañil: o da obra, feito com garrafa plástica e guampa improvisada.
- Tereré novillo: o convite para um tereré que funciona como paquera.
- Tereré jorador: o da ressaca, preparado com ervas diuréticas.
- Tereré pantano: quando a água leva erva medicinal demais.
- Tereré solitario: o de quem toma sozinho.
A diferença entre o tereré e o chimarrão está na água e na erva
Tereré e chimarrão usam a mesma planta, a Ilex paraguariensis, e se separam na temperatura da água e na moagem da erva. No tereré a água vai gelada, e a erva é moída mais grossa, com fragmentos maiores e pedaços de galho. O chimarrão, muito tomado no Sul do Brasil e no Uruguai, leva erva mais fina e água quente, servida na cuia.
O tereré dá nome a um centro de cultura em Ponta Porã
Desde 13 de março de 2026, Ponta Porã tem o Centro de Cultura, Empreendedorismo, Inovação e Memória do Tereré (CEIMPP), inaugurado junto do Parque Tecnológico Internacional, na Avenida Brasil. A Prefeitura apresenta o centro como o lugar criado para guardar a memória do tereré e apoiar quem empreende com a cultura regional. A estrutura do parque está na ficha do PTIn.
Linha do tempo
- séc. XVIComeça, de forma aproximada, a transmissão das práticas do tereré nas famílias paraguaias, segundo o dossiê da UNESCO.
- 7 jan. 2011A Lei 4.261 declara o tereré patrimônio cultural e bebida nacional do Paraguai e cria o Día Nacional del Tereré, no último sábado de fevereiro.
- 31 mar. 2011O Decreto estadual 13.140 registra o Tereré de Ponta Porã no Livro de Registro dos Saberes de Mato Grosso do Sul.
- 30 mar. 2015A Lei 5.406 cria no Paraguai o Día Nacional del Pohã Ñana, em 1º de agosto.
- 21 mar. 2019As práticas do tereré entram no registro de patrimônio cultural imaterial do Paraguai.
- dez. 2020A UNESCO inscreve as práticas do tereré na cultura do pohã ñana na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
- 29 jun. 2023O Decreto Legislativo 769 declara o tereré patrimônio imaterial e cultural de Mato Grosso do Sul.
- 13 mar. 2026Ponta Porã inaugura o Centro de Cultura, Empreendedorismo, Inovação e Memória do Tereré (CEIMPP).

