Ponta Porã virou a quarta maior cidade de Mato Grosso do Sul crescendo 1,40% ao ano entre os dois últimos Censos, num estado onde a segunda e a quinta colocadas seguiam caminhos opostos. A pergunta que sobra é o que empurra esse crescimento.
Três respostas têm dado público que as sustenta. Uma quarta, muito repetida na cidade, não tem.
O agro deixou de ser parte da economia e virou a economia
Este é o dado mais forte, e de longe.
Em 2010 o agro respondia por 24% do valor adicionado de Ponta Porã, R$ 224 milhões de um total de R$ 936 milhões. Em 2021, último ano com abertura por setor no IBGE, o agro sozinho somava R$ 1,70 bilhão de um total de R$ 4,28 bilhões. Multiplicou por 7,6 enquanto a economia inteira multiplicou por 4,6, e passou de um quarto para dois quintos de tudo o que a cidade produz.
O PIB total conta a mesma história por outro ângulo. Em 2010 Ponta Porã produzia R$ 1,05 bilhão e Corumbá produzia R$ 1,86 bilhão, quase o dobro. Em 2023 Ponta Porã estava em R$ 6,07 bilhões e Corumbá em R$ 4,19 bilhões. A ultrapassagem econômica aconteceu mais de uma década antes da ultrapassagem populacional.
O PIB de Ponta Porã multiplicou por 5,8 desde 2010. O de Corumbá, por 2,3.
A fronteira aparece nos dados, e aparece pouco
Ponta Porã tem a maior proporção de estrangeiros entre as cidades grandes de Mato Grosso do Sul. O Censo de 2022 contou 2.035 estrangeiros morando na cidade, 2,21% da população, mais 1.283 naturalizados brasileiros. Somando os dois grupos são 3.318 pessoas nascidas fora do Brasil, 3,6% dos moradores.
É a maior fatia do estado, à frente de Dourados, com 2,04%, e bem acima de Campo Grande, com 0,46%. Mas 3,6% não constroem sozinhos um crescimento de 18% em doze anos. A fronteira explica uma parte do fenômeno, não o fenômeno.
O que os dados não capturam é o trânsito diário, que na prática é o que faz a cidade funcionar. Quem mora em Pedro Juan Caballero e trabalha em Ponta Porã não entra em nenhuma das duas populações como morador do outro lado.
Corumbá encolheu por motivos que são dela
Comparar as duas cidades ajuda desde que a comparação seja honesta.
Corumbá perdeu 7.407 moradores entre os Censos, uma queda de 0,62% ao ano, e desde 2022 está praticamente parada. É um município de 64.432 km², com 1,49 habitante por quilômetro quadrado, com a economia amarrada ao Pantanal, ao minério e ao porto. Ponta Porã tem 5.359 km² e 17,17 habitantes por quilômetro quadrado.
São duas economias diferentes em dois territórios diferentes. Ponta Porã não cresceu tirando gente de Corumbá.
A explicação que os dados públicos não fecham
Falta a universidade, e aqui é preciso parar.
Ponta Porã tem campus da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul desde 2009, com cursos de computação, matemática e pedagogia, e o mesmo espaço abriga cursos da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. A data bate com o começo da aceleração populacional, e na cidade a associação entre as duas coisas é feita o tempo todo.
Bater é diferente de explicar. Não existe, nas bases públicas consultadas para esta série, número de matrícula por campus que permita medir quanta gente o ensino superior fixou em Ponta Porã. Sem esse número, a hipótese fica registrada como hipótese.
O que ainda falta medir em Ponta Porã
Duas contas fechariam o quadro e não estão disponíveis com o recorte necessário.
A primeira é a divisão entre crescimento por nascimento e crescimento por migração. Saber quanto dos 14.140 moradores a mais veio de berço e quanto veio de mudança separaria uma cidade que se reproduz de uma cidade que atrai.
A segunda é o vínculo de emprego por setor ao longo do tempo, que mostraria se o salto do agro no valor produzido virou posto de trabalho na cidade ou ficou concentrado na lavoura mecanizada, que produz muito e emprega pouco.
Os números desta reportagem saíram das tabelas 4709, 10157 e 5938 do SIDRA, o sistema de consulta do IBGE.