No norte do Mato Grosso, uma rede de quase 40 pontes de corda e cabo de aço liga copa de árvore de um lado a outro da pista, para que macaco-aranha, guariba, sagui e o zogue-zogue-de-Alta-Floresta atravessem sem pisar no asfalto. É o Projeto Reconecta, do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), coordenado pela bióloga Fernanda Abra. Só em Alta Floresta (MT), a rede cresceu de 7 para 15 pontes entre outubro de 2024 e agosto de 2026, e as câmeras já registraram mais de 15 mil travessias, sem nenhum atropelamento de primata nas áreas cobertas.

Em Mato Grosso do Sul, a mesma lógica já é obrigação legal. Só que mais antiga, e mais atrasada.

A exigência ambiental tem 14 anos de atraso

A Licença de Instalação nº 733/2010, que autorizou obras na BR-262 entre Aquidauana e Corumbá, no Pantanal, já previa passagem de fauna como condição. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) não cumpriu. Em 2018, o Ministério Público Federal entrou com ação civil pública para obrigar o órgão a instalar, entre outras medidas, duas passagens aéreas exclusivas para o macaco-prego (Sapajus cay) nos quilômetros 734 e 755 da rodovia.

A pressão tinha número atrás. Um levantamento de 20 anos do professor Wagner Fischer, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), aponta mais de 3 mil mortes de animais silvestres por ano só nesse trecho, atingindo até 88 espécies. Duas delas aparecem nomeadas na própria ação do MPF: o macaco-prego e o cervo-do-pantanal.

O plano só saiu do papel em 2024, com a mesma bióloga da Amazônia

O Dnit aprovou o Plano de Mitigação de Atropelamentos de Fauna e Incremento de Conectividade da BR-262 em novembro de 2024. Quem assina o projeto técnico é a ViaFauna, consultoria fundada em 2014 por três bióloga, entre elas Fernanda Abra, a mesma que lidera o Projeto Reconecta na Amazônia. Em fevereiro de 2025, a superintendência do Dnit em Mato Grosso do Sul publicou o pregão eletrônico para executar o plano, orçado em R$ 32,2 milhões: 170 km de cerca para conduzir os animais até os pontos de travessia, passagem subterrânea e passagem aérea.

Cerca e passagem subterrânea já foram instaladas ao longo de 2025. As duas passagens aéreas específicas para o macaco-prego, previstas para o km 734 e o km 755, não têm confirmação pública de conclusão até o fechamento desta matéria.

Uma frente maior corre em paralelo

Fora do plano específico da BR-262, o Estado também comprometeu 22 passagens de fauna na concessão Rota da Celulose, que passou a administrar 870 km de rodovias em Mato Grosso do Sul, incluindo trechos da BR-262 e da BR-267, sob o consórcio Caminhos da Celulose. O contrato divulgado pelo governo do Estado não detalha quantas dessas 22 passagens serão aéreas nem em qual quilômetro cada uma fica.

Serviço: o que já existe e o que ainda falta

O Projeto Reconecta, que virou referência nacional para o desenho de passagem aérea de fauna, soma hoje cerca de 40 pontes de dossel na Amazônia. O prêmio Whitley que Fernanda Abra recebeu em 2024 ajudou a bancar parte dessa expansão. Em Mato Grosso do Sul, quem banca é o pregão de R$ 32,2 milhões assinado pelo Dnit em fevereiro de 2025, com cerca e passagem subterrânea entregues e a passagem aérea para o macaco-prego, prevista desde 2010, ainda sem data pública de conclusão.